O que o maior evento do mundo nos ensina sobre liderar pessoas sob pressão

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Keila Dier

Liderança corporativa sob pressão e o banco de reservas nas empresas

No dia 11 de junho, o maior torneio de futebol da história começa no Estádio Azteca, no México, reunindo pela primeira vez 48 seleções de todo o mundo em três países simultaneamente. Serão 104 partidas ao longo de 39 dias, com bilhões de pessoas acompanhando cada decisão, cada substituição, cada olhar trocado entre um técnico e seu capitão na beira do campo. O mundo vai assistir ao futebol. Eu vou observar a liderança!

O vestiário antes do campo

Existe um momento na Copa do Mundo que nenhuma câmera captura e que, na minha leitura, define mais jogos do que qualquer esquema tático: o que acontece dentro do vestiário nos minutos que antecedem a partida. A forma como o técnico entra, o tom que ele usa, se as palavras que ele escolhe ativam confiança ou instalam ansiedade. Se o capitão do time está presente para seus companheiros ou está absorto na própria pressão.

Esse momento invisível é onde a liderança se revela. E é onde os campeonatos são ganhos ou perdidos antes mesmo do apito inicial.

Nas empresas com as quais trabalho, vejo exatamente o mesmo fenômeno em outro cenário: a reunião antes da apresentação mais importante do ano, o briefing antes da negociação que pode mudar o destino do negócio, o conversa rápida antes de uma demissão difícil. O líder que sabe o que fazer nesses momentos de limiar carrega a equipe. O que não sabe drena a energia de todos ao redor.

48 seleções e uma única lição

Pela primeira vez na história, a Copa de 2026 reúne 48 seleções, ampliando em 50% o campo de competidores em relação à edição anterior. Mais talentos. Mais culturas. Mais estilos de jogo. E, invariavelmente, mais lideranças sendo testadas ao mesmo tempo num mesmo torneio.

Costumo dizer que um time de alto desempenho nunca é a soma dos melhores indivíduos. É o resultado de uma cultura construída com intenção, repetição e coerência ao longo do tempo. A Argentina que venceu a Copa de 2022 no Catar tinha Messi, sim — mas tinha também um vestiário coeso, uma liderança técnica que sabia quando proteger e quando pressionar, e um grupo que aprendeu a ganhar junto depois de anos aprendendo a perder junto.

Isso não se compra na janela de transferências. Não se cria em seis meses de preparação. E não se improvisa numa final.

Observo os grandes técnicos do futebol mundial com o olhar de quem estuda liderança há mais de 25 anos, e o que me impressiona não é a sofisticação tática. É a consciência que eles têm sobre o estado emocional coletivo das suas equipes em cada momento da competição.

Os melhores sabem quando um grupo precisa de pressão e quando precisa de acolhimento. Sabem que um discurso errado no momento errado pode desfazer semanas de construção. Sabem que sua expressão corporal, o volume da voz e a escolha das palavras numa coletiva de imprensa chegam ao vestiário antes deles.

Penso que essa é a habilidade mais subestimada no mundo corporativo: a leitura do estado emocional coletivo de uma equipe em tempo real. O líder que domina isso não precisa de muito mais. O que não domina pode ter todas as ferramentas de gestão do mundo e ainda assim perder os momentos que mais importam.

A lição que o campo traz para o escritório

O novo formato da Copa reduz a margem para erros, aumenta a importância do elenco e favorece seleções com maior profundidade. Traduzido para o mundo das organizações: ambientes cada vez mais competitivos e acelerados não toleram mais lideranças que dependem de uma única pessoa para funcionar. O líder que não formou outros líderes ao seu redor vai chegar numa semifinal sem banco de reservas.

Nas empresas esse é um dos diagnósticos mais recorrentes e mais custosos: a organização que cresceu, mas cuja liderança não cresceu junto. O técnico que ainda precisa resolver pessoalmente cada crise, porque nunca treinou ninguém para resolvê-las no lugar dele.

A Copa dura 39 dias. Uma empresa dura décadas. A exigência de profundidade no elenco de liderança é, nas corporações, muito maior do que em qualquer Copa do Mundo.

Em 11 de junho, o mundo vai se sentar para assistir ao futebol. Eu convido você a assistir à liderança. Observe como os técnicos reagem quando o placar vira. Veja quem os capitães procuram nos momentos de pressão. Note quais times mantêm coesão depois de um gol sofrido e quais se desfazem. O campo vai ensinar tudo o que os livros de gestão tentam explicar, em tempo real, para bilhões de pessoas.

Vamos torcer juntos!

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