A substituição que o técnico precisa fazer e que nenhum líder gosta de decidir

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Keila Dier

Prancheta tática de estratégia desportiva ao lado de relatórios financeiros corporativos, simbolizando a tomada de decisão clara e a gestão de equipas no mercado real.

A Copa do Mundo começou. E junto com ela voltou um dos momentos mais tensos e reveladores do futebol de alto nível: a substituição. Aquele instante em que o técnico olha para o campo, toma uma decisão que pode mudar o jogo, levanta do banco, caminha até a lateral e chama um atleta para sair de campo.

O jogador que sai às vezes discorda. O time observa. O estádio reage. E o técnico precisa sustentar a escolha com convicção, porque hesitar nesse momento custa mais do que a própria substituição.

Toda vez que começa um jogo de futebol, assisto com o olhar de quem estuda liderança há mais de 25 anos. E o que vejo no banco de reservas é um espelho fiel do que acontece dentro das organizações.

O Brasil lidera o ranking mundial de rotatividade de profissionais, com uma taxa de 51,3% ao ano, segundo o Mapa do Cenário de Gestão de Pessoas da Sólides, com base nos dados do CAGED. Em setores como serviços e varejo, essa taxa ultrapassa 80%. Somos, literalmente, o país que mais troca de time no mundo corporativo.

E esse movimento tem preço. A reposição de um profissional pode custar entre 50% e 200% do salário anual da posição, considerando recrutamento, seleção, treinamento e a perda de produtividade durante o período de adaptação. Uma empresa que trata a troca de pessoas como solução rápida para problemas complexos está, na maioria das vezes, acumulando um passivo que vai aparecer nos resultados antes do que imagina.

Mas há um outro lado dessa equação que poucos líderes têm coragem de encarar: o custo de não fazer a substituição quando ela é necessária.

O jogador errado no momento errado drena o time

Num jogo de Copa do Mundo, um técnico que mantém em campo um jogador fora de ritmo, lesionado emocionalmente ou desalinhado com a estratégia do momento não está sendo leal. Está sendo omisso. E essa omissão cobra um custo coletivo: o time inteiro paga pela permanência de quem deveria ter saído.

Em muitas empresas, esse é um dos padrões mais recorrentes e mais custosos que encontro. O líder que sabe que precisa fazer uma mudança, que reconhece que determinada pessoa não está mais no lugar certo, mas adia a decisão por desconforto, por afeto mal colocado ou por medo do impacto. E enquanto adia, o restante da equipe observa, interpreta e tira suas próprias conclusões sobre o que a liderança tolera.

Costumo dizer que as pessoas de uma equipe sabem muito antes do líder quem está ou não contribuindo. Quando a liderança demora para agir, ela não está protegendo ninguém. Está minando a confiança de todos.

O que diferencia um grande técnico de um técnico mediano não é a capacidade de escalar o time titular. É a qualidade das decisões que ele toma quando o plano original não funciona. Quando o jogo pede uma mudança que ninguém esperava. Quando a substituição vai contra a narrativa, mas está certa.

No mundo das organizações, essa habilidade tem nome: é a capacidade de fazer mudanças difíceis preservando a dignidade de quem sai e a coesão de quem fica.

Penso que toda substituição corporativa bem realizada tem três elementos. O primeiro é clareza — a decisão precisa ter uma razão genuína, comunicável e justa, compreensível mesmo por quem discorda dela. O segundo é respeito — a forma como alguém é desligado ou realocado diz muito mais sobre a cultura da organização do que qualquer política interna. E o terceiro é velocidade — uma vez tomada a decisão, executá-la com demora transforma o processo em algo mais cruel do que a própria mudança.

Quem fica também está observando

Há um detalhe que os melhores técnicos de futebol conhecem e que a maioria dos líderes corporativos subestima: a substituição não é só sobre o jogador que sai. É sobre o que o time inteiro aprende com aquele momento.

Quando uma substituição é feita com clareza, respeito e no momento certo, o grupo entende que a liderança está atenta, que as decisões têm critério e que o coletivo vem antes do individual. Quando é feita de forma abrupta, sem explicação ou com inconsistência, o time que fica carrega a insegurança. E insegurança, dentro de uma equipe de alta performance, é o começo do fim.

A Copa dura pouco mais de um mês. As organizações duram décadas. Mas a lógica é a mesma: times vencem quando têm as pessoas certas nos lugares certos, no momento certo, e quando a liderança desenvolve coragem and discernimento para fazer as mudanças que o jogo exige, antes que o marcador decida por ela.

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