Após 26 anos de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entrou em vigor no dia 1º de maio de 2026, criando uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. A partir dessa data, mais de 80% dos produtos brasileiros exportados à Europa passam a operar com tarifa de importação zerada, num mercado de mais de 700 milhões de consumidores.
Vinte e seis anos. Uma geração inteira de empresários que nasceu, cresceu e construiu seus negócios esperando por esse momento. E que hoje acorda com uma janela aberta para o maior mercado já acessado pelo Brasil na história da sua política comercial.
A pergunta que me faço não é se o acordo é bom. É: as empresas brasileiras têm a liderança necessária para aproveitá-lo?
O acordo é considerado estratégico porque amplia significativamente o alcance comercial do Brasil. Atualmente, países com os quais o Brasil tem acordos comerciais representam cerca de 9% das importações globais. Com a entrada da União Europeia, esse número pode saltar para mais de 37%. São números que mudam a escala do jogo. Mas escala maior exige organização maior, processos mais robustos, equipes mais preparadas e líderes que consigam enxergar além da operação do dia a dia.
O que observo nas empresas com as quais trabalho é que a maioria sabe da notícia, mas pouquíssimas têm um plano. Sabem que o acordo chegou. Não sabem o que vão fazer com ele. E aí está o problema, porque oportunidade sem preparo vira ansiedade, e ansiedade sem direção vira paralisia.
Uma porta aberta não é uma estratégia. É um convite. Quem responde ao convite é a liderança.
O que esse mercado vai exigir que você ainda não tem
Acesso ao mercado europeu não é só ausência de tarifa. O consumidor europeu tem padrões de conformidade, rastreabilidade e sustentabilidade entre os mais exigentes do mundo. O acordo estabelece regras comuns para comércio, padrões técnicos e compras governamentais, além de estar vinculado a compromissos ambientais como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira da União Europeia. Isso significa que entrar nesse mercado não é só uma decisão comercial. É uma decisão de posicionamento, de cultura interna, de toda a cadeia produtiva.
Costumo dizer que toda mudança de escala é antes de tudo uma mudança de liderança. Empresas que crescem sem que a liderança cresça junto criam novos problemas no lugar de novas oportunidades. E o mercado europeu não perdoa despreparo com a mesma tolerância do mercado doméstico.
O lado fiscal que ninguém está contando
Como contadora, tenho um olhar particular sobre o que esse acordo vai demandar das organizações brasileiras. A redução de tarifas de exportação é a parte visível e celebrada. Mas há uma face menos discutida: o aumento da concorrência interna.
A União Europeia também reduzirá tarifas para produtos europeus que entram no Brasil, o que significa que setores como máquinas, equipamentos e químicos vão enfrentar competidores europeus com preços mais competitivos no mercado nacional. Para muitas empresas, o acordo não vai abrir apenas uma porta de saída. Vai abrir também uma porta de entrada para quem vai competir com elas em casa.
Isso muda radicalmente o que se exige de um líder. Não basta olhar para fora e identificar oportunidades de exportação. É preciso olhar para dentro, mapear vulnerabilidades, revisar estrutura de custos e preparar as equipes para um ambiente competitivo genuinamente diferente. Isso não é trabalho de consultor externo. É trabalho de liderança executiva.
26 anos nos ensinam algo sobre o tempo longo
Há uma última lição que esse acordo carrega, e que vai além do comércio. Vinte e seis anos de negociação, resistências, crises políticas, mudanças de governo dos dois lados, e ainda assim o acordo chegou. Porque havia pessoas dispostas a manter o objetivo vivo por mais tempo do que seus mandatos, seus cargos, suas carreiras individuais.
Nas empresas com as quais trabalho, essa capacidade de manter a direção quando os resultados ainda não aparecem é uma das mais raras e valiosas em qualquer liderança. Não é teimosia. É propósito com método. É saber que algumas construções levam tempo, e que o papel do líder é garantir que a organização não perca o rumo enquanto o mundo ao redor não para de mudar.
O acordo Mercosul-UE chegou. Agora começa a parte que nenhum governo pode fazer por você.
Keila Dier é especialista em liderança, palestrante internacional e consultora com atuação em empresas dos segmentos de inovação, agronegócio e indústria.